Ideologia, a Gata Borralheira dos nossos tempos

Como é de uso, quando se fala em ideologias imediatamente alguém se arrepia com a palavra e sugere uma outra coisa. No caso, um leitor propôs em alternativa uma reflexão sobre estratégias futuras.

Bom, de onde vem esta alergia a uma palavra tão interessante ?...
Esmiucemos... De forma simplificada, pode entender-se por ideologia qualquer corpo coerente de idéias que conferem algum tipo de justificação ética a uma prática.
Como alguém já referiu, usualmente a ideologia sucede à prática, não a precede.

Andemos para trás no tempo. Se observarmos as grandes mudanças qualitativas ao longo da História, podemos com alguma segurança afirmar que elas não foram precedidas de uma justificação coerente. Tipicamente, tratou-se de ajustes involuntários ( muitas vezes revolucionários ) resultantes da inadequação da ideologia vigente à realidade. Mas, particularmente na Europa, assume particular interesse o período que se inicia com o descalabro do absolutismo e termina no colapso da URSS, pela sua fecundidade do ponto de vista da produção ideológica, gerando um largo leque de opções, algumas delas com impactos muito dramáticos.

À saída deste período, venceu aos pontos uma versão da ideologia ( quase ) liberal. E, como tantas vezes acontece, criou-se então a ilusão de que o modelo proposto seria quase consensual e, mais ainda, representaria um cume inultrapassável, um compromisso que duraria por toda a eternidade. Houve até um rapaz muito jeitoso que jurou a pés juntos que tínhamos alcançado o fim da História, mas acabou por ter de se retractar alguns anos depois...

Nada de novo. A expressão sempre foi assim e há-de ser sempre assim é manifestamente falsa, como as inúmeras reviravoltas da História nos mostram, mas é talvez uma das frases que, ela sim, terá acompanhado desde sempre a humanidade. Trata-se apenas de uma de várias manifestações negativas do modo de funcionamento do nosso cérebro.

Sugiro, portanto, que será prudente olharmos para o mundo com sentido mais crítico, porque algumas das coisas em que acreditamos simplesmente não têm fundamento. De momento, uma das crenças que me parecem mais perigosas é a da associação entre a democracia política e um sistema económico capitalista quase liberal. Uma outra é a de uma infinita criatividade, supostamente capaz de gerar novas áreas de negócio que absorvam as massas humanas rejeitadas em virtude do contínuo aumento de produtividade num planeta em que os mercados atingem a sua dimensão máxima com a globalização.

Ora, noto que o sistema chinês, fortemente dirigista e completamente divorciado do humanismo ocidental, se apresenta hoje como solução de sucesso e promete ser a potência dominante dentro de duas ou três décadas, forçando os países ocidentais a um drástico e incondicional realinhamento por baixo.

Parece-me que o nosso sistema de crenças vai entrar em crise a curto prazo... Parece-me que seria prudente começarmos desde já a pôr os pontos nos is, em vez de nos colocarmos na péssima posição de ter de reagir em cima do acontecimento.
Por isso me parece, enfim, que a palavra ideologia não deveria ser maltratada. Vamos precisar dessa palavra.

1 comentário:

Anónimo disse...

Caro colega,

A definição de Ideologia era entendida pelos pensadores da antiguidade clássica e da Idade média como "o conjunto de ideias e opiniões de uma sociedade".

Ora nos tempos mais modernos começou a confusão entre o termo ideologia e a colagem política ao mesmo.

Não vou encetar aqui uma dissertação linguística que poderia ser deveras interessante, mas totalmente inapropriada para o local.

Concordo plenamente com a opinião que vamos precisar de ideologia nos tempos que aí vêm.

Mas já não concordo com a afirmação que, e cito "Ora, noto que o sistema chinês, fortemente dirigista e completamente divorciado do humanismo ocidental, se apresenta hoje como solução de sucesso e promete ser a potência dominante dentro de duas ou três décadas, forçando os países ocidentais a um drástico e incondicional realinhamento por baixo." fim de citação.

Solução de sucesso para quem e à luz de que critérios ?
Se for à luz de critérios liberais que a tudo na China se vêm aplicando menos ao governo do povo e , oh coisa gira, à ideologia de partido único, pode ser.

Mas e a poluição que está a ser gerada pelo excesso de indústria sem as normas de protecção ambientais existentes nos países ocidentais ?
E que dizer da total ausência de protecção social dos autóctones ?
E o porquê de isto estar a acontecer ? E poderia citar mais alguma situações genéricas como estas.
Uma reflexão profunda e cuidada se impõe... na minha humilde opinião.