Cautela e caldos de galinha

Adoro a classe média. Para esta coisa informe, da qual infelizmente faço parte, o universo é simples... Um eterno presente, sem memória do passado ou alternativa de futuro. Pior ainda, uma quimera pavloviana, que consegue salivar ainda antes do toque da sineta...

Vimos recentemente os primeiros sinais de alerta para o problema da escassez de alimentos, e assistimos de imediato à ressurreição do proteccionismo na sua pior forma, com cerca de dez grandes exportadores a impor restrições à saída do novo ouro. Nada de estranho, nada de imprevisível.
Há cerca de seis meses atrás, quando alguém me questionou sobre investimentos seguros, respondi de forma simples: produtos alimentares. Julgo que a pessoa em causa perceberá agora a que me referia.

Clarifiquemos, no entanto. A crise actual não passa de um prenúncio, algo que resulta para já de aspectos circunstanciais, que podem ser facilmente minimizados no quadro das instituições internacionais de regulação comercial existentes.
Trata-se de um núcleo de baixas pressões, sugado de um lado pelo aumento gradual da procura, de outro por incidentes naturais ou incompetência humana, e de outro ainda pela desastrosa performance da D. Branca norte-americana.

Não resisto no entanto a relevar o gozo imoral que me dão as notícias que chegam dos EUA... As que nos dão conta do racionamento imposto por várias cadeias de retalho a venda de diversos cereais, face à súbita tentação de açambarcamento que acometeu esta maravilhosa classe média.

Também por aí, não criemos no entanto angústias sem sentido. Se há problemas no abastecimento por parte dessas cadeias, eles decorrem apenas, para já, do modelo de gestão mais difundido, cujo primeiro mandamento é Não manterás stocks para mais de 24 horas, caso contrário vais para o olho da rua.

Gozo à parte, talvez fosse interessante que a lusa governação começasse a pensar no assunto, não vá o diabo tecê-las. E seguramente, o diabo vai tecê-las.

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