Uma das linhas de força mais importantes na cimeira da NATO, tão ou mais importante que a questão do alargamento, foi a necessidade de garantir maior empenho na estabilização do Afeganistão. A razão é simples, todo o esforço feito até agora na construção de uma democracia pluralista está em risco.
A tarefa não se adivinhava fácil. O país foi seriamente degradado por décadas de guerras, que acabaram por promover as lealdades tribais em detrimento do sentimento nacional, e a cruel unificação sob domínio Taliban foi interrompida pela intervenção dos países ocidentais, que dessa forma assumiram ingenuamente a responsabilidade de prosseguir a unificação em moldes mais humanos, quando lhes interessaria acima de tudo garantir alguma influência num país estrategicamente valioso. Chamem-me cínico, mas creio que poderíamos tê-lo feito sem abater os Taliban.
Como aconteceria em seguida no Iraque, pecaram os países ocidentais, julgo eu, por erro injustificado e persistente. Erro na demonização imprudente dos Taliban, erro na avaliação da correlação de forças. Quanto ao primeiro, pareceu-me na altura indício óbvio o conjunto de atrocidades cometidos pela Aliança do Norte. Do seu episódio mais grave fica a lembrança de uma investigação da ONU, nunca concluída, sobre a chacina de centenas de Taliban em contentores.Quanto ao segundo, pareceu-me e parece-me estranho que não se tenha reflectido sobre as razões que conduziram os Taliban ao poder.
Seis anos depois, estamos quase na estaca zero, com uma pequena agravante... O Paquistão, forçado a transformar o seu território numa das frentes de guerra que supostamente contribuiria para esmagar os Taliban e a Al-Qaeda, atirou agora a toalha ao tapete, ao negar a Musharraf a possibilidade de manter a aliança com o Ocidente, pois esta começava a ameaçar seriamente a integridade do estado.Um volte-face dramático, que conduziu Negroponte a uma humilhação quando, ainda antes da tomada de posse do novo governo, decidiu ir dar ordens em casa alheia e saíu pela porta do cavalo. Rei morto rei posto, o Paquistão inicia agora um processo negocial com os Taliban. Fechada esta frente de combate, eles ficarão totalmente disponíveis para o teatro afegão, o mesmo acontecendo aos muchachos da Al-Qaeda e até alguns desempregados da quezília de Cachemira.
Um quadro pouco auspicioso para nós, daí a urgência num maior empenho dos membros da NATO. Por mais que limpe as lentes do meu coproscópio, no entanto, não consigo perceber onde queremos chegar...
As delícias do Grande Jogo
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